Hoje foi um dia especial

Posted on Thu Apr 23 2020 17:11:00 GMT+0000 (Coordinated Universal Time)


Hoje foi um dia especial. Consegui dormir 6 horas e só acordei duas vezes durante a noite. Bem melhor do que nas últimas semanas. E acordei para mais um dia em que sinto valorizado. Acordei e li num jornal que, ao contrário do resto do país, os profissionais de saúde foram “premiados” com mais um adiamento do aumento de 0,3% para os funcionários públicos. O representante do Governo afirmou que isto se deveu à complexidade de alterarem no programa informático um decreto-lei em vigor desde dia 20 de março e que, até dia 14 de abril, não tiveram tempo para os enfermeiros, médicos, assistentes operacionais e assistentes técnicos do seu SNS.
Numa altura em que os profissionais de saúde são colocados à prova e são apresentados como a linha da frente no combate à CoViD-19, recebemos mais uma vez a prova da consideração, respeito e valorização que o Governo tem pelos seus trabalhadores que, agora mais do que nunca, são basilares na defesa da Saúde dos portugueses.
Já não me refiro à discriminação entre função pública e contratados; já não falo das progressões-fantasma da carreira de enfermagem (até porque só se formos fantasmas é que conseguimos chegar aos 100 anos para atingir o topo da mesma), já não falo da prepotência com que na Assembleia da República é recusado atribuir um subsídio de risco àqueles que diariamente colocam a sua segurança em risco e das suas famílias para controlar uma pandemia de proporções únicas no último século; já não falo na intransigência e arrogância com que se finca o pé nas celebrações do dia 25 de abril; já não falo das centenas de profissionais de saúde que estão afastados das suas famílias há 2 meses com receio de os contaminar e que se choram sozinhos quando chegam às suas camas, sem ninguém para os reconfortar.
Mas refiro-me à absoluta falta de respeito pelos trabalhadores de um SNS que face á hipocrisia governativa, são “adiados com efeitos retroativos” porque o programa informático de vencimentos, aparentemente, demorava mais do que 3 semanas a atualizar para uns, mas para outros não houve problema. Quando me pedem cada vez mais e mais; quando me pedem para abdicar de toda a minha vida pessoal para conseguir suportar um desafio desta magnitude, muitas vezes sem o equipamento básico para me proteger; quando me pedem para agradecer ter um contrato de trabalho e não estar em lay-off; quando me pedem para colocar a minha vida em risco em cada cuidado que presto; quando me pedem para pensar nos milhões de pessoas que não podem (devem) sair de casa e que agora passeiam o seu animal de estimação 5 ou 6 vezes por dia (muitas vezes até os animais vão contrariados); a todos eles agradeço as palmas, a falsa admiração, a consideração que têm pela minha cabeça no cadafalso. Foi a profissão que escolhi? Sem dúvida. Continuo a dizer que Enfermagem é a melhor profissão do mundo.
Mas as palmas e admiração não pagam contas, não me protegem para continuar a trabalhar até aos 68 anos de idade. Não me dão a dignidade que mereço por estar em risco todos os dias enquanto que nesses gabinetes estatais as cadeiras continuam reclináveis e o café continua a ser pago pelos contribuintes.
Sem dúvida, hoje foi um dia muito especial.

Sónia Portugal Viegas - Presidente Conselho Fiscal SITEU

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